Especial Portal T5

Transposição: as águas que mudaram a vida dos paraibanos

Série especial de reportagens do Portal T5 percorreu 466 km para contar a história de paraibanos que tiveram a vida transformada com as águas do Rio São Francisco.

Campina Grande - PB

Água para a vida

Para limpar e filtrar o sangue da professora Elizabeth Ferreira, as máquinas de hemodiálise em um hospital de Campina Grande utilizam 30 mil litros de água por dia. À espera de um transplante e com os rins paralisados, ela percorre 45 quilômetros do município de Remígio, três vezes por semana, para realizar o tratamento na segunda maior cidade do estado.

Com o baixo nível de armazenamento do açude Epitácio Pessoa, o Boqueirão, Campina Grande e mais 18 cidades abastecidas diretamente por ele entraram em racionamento em dezembro de 2014.

"Não chovia, então o nível da água só baixava. A agência reguladora começou a reduzir a quantidade de água que poderíamos retirar para atender Campina e os demais sistemas", disse Ronaldo Meneses, gerente regional da Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa).

A falta de água afetou moradores, o comércio e a esfera da saúde. A professora afastada do trabalho para tratamento nos rins ficou receosa em relação à continuidade do tratamento. As unidades de saúde da região tiveram que adaptar maneiras alternativas para não prejudicar os serviços essenciais. "Os hospitais que realizam este serviço passaram por um sufoco muito grande. Tivemos que construir poços artesianos e a análise daquela água é muito mais rigorosa, consequentemente custava mais", contou José Targino, presidente da Associação dos Hospitais de Campina Grande.

"Eu fiquei com medo até por ver nos jornais o problema em outras cidades, por outras pessoas que fazem a hemodiálise", disse Elizabeth. 

O trabalho e alimento - A fabricação de pães e massas também foi prejudicada em uma das padarias da cidade. Os funcionários tiveram que se adaptar a trabalhar com o pouco que chegava na torneira e fazer ajustes na produção. "Assim que marcaram a data do racionamento começamos a fazer o processo para adquirir uma caixa d'água, ajustar local e todo aquele trabalho para adaptação", disse o gerente Leopoldo de Farias.

O problema não se restringia apenas ao local de trabalho, em casa também era sufoco. "Muito complicado, porque a gente teve que armazenar muito. Quem não tinha como fazer isso e não tinha caixa d'água, teve que juntar em baldes". Quando a água aparecia era fraca e por tempo indeterminado. "Era muito inseguro, diziam que iria chegar, mas isso não acontecia, ou quando chegava era muito rápido. Tínhamos que de todo jeito armazenar a maior quantidade possível", contou Wesley Kelvin, chapeiro do estabelecimento.

O 'Velho Chico' correu por Pernambuco pelo Eixo Leste chegando aos açudes de Monteiro e Camalaú até encontrar o Boqueirão em abril de 2017. Antes das águas do São Francisco, o açude, que tem capacidade para armazenar 411.686.287 m³, estava com pouco mais de 12 milhões de m³ (3%). Um ano depois, o nível de água já havia ultrapassado 35%.

Um canal foi criado para além de Boqueirão, a água passou a ser levada para o açude de Acauã, depois Araçagy e, por fim, um perímetro irrigado na região da cidade de Sapé.

Após mais de dois anos, Campina e 18 cidades saíram do racionamento em agosto de 2017. O alívio chegou para mais de 500 mil pessoas trazendo alegria e garantindo segurança hídrica.