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Pressão por voto impresso e acusações sem provas de fraudes suscitam e são suscitadas por fake news

Neste A Semana em Fakes, Edgard Matsuki, editor do Boatos.org, comenta como notícias falsas, ao mesmo tempo, são incentivadas e incentivam a aprovação do voto impresso para 2022

Publicado em 10/07/2021 16:18 Atualizado em 10/07/2021 16:25
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Por Boatos.org
Pressão por voto impresso e acusações sem provas de fraudes suscitam e são suscitadas por fake news

(Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Na última semana, vimos, na pauta das fake news na web, uma série de informações falsas (muitas de baixo nível) relacionadas a apreciação na Câmara sobre o voto impresso nas eleições do ano que vem.

Com a colaboração do próprio presidente Jair Bolsonaro, que vem levantando suspeitas infundadas sobre a lisura do processo eleitoral, notícias falsas sobre “grandes escândalos envolvendo a tentativa de barrar o voto impresso” tiveram duas funções para bolsonaristas nos últimos dias.

A primeira foi tentar desviar o foco (pelo menos no debate em redes sociais) da CPI da Pandemia. As últimas descobertas da investigação colocaram o presidente Jair Bolsonaro em posição delicada. Por isso, falar em voto impresso “serve” para ocupar um espaço temporal no qual ele deveria estar falando sobre a CPI e à própria pandemia.

A segunda é se “blindar” politicamente para “justificar” uma eventual derrota em 2022. As últimas pesquisas mostram claramente Bolsonaro com queda de popularidade. As chances de ele não ser reeleito, de acordo com pesquisas, aumentaram nos últimos dias. É possível que, assim como Trump nos EUA, uma derrota pode trazer a retórica de que as eleições foram fraudadas à tona e, em nível extremo, uma tentativa de golpe. O terreno para isso já está sendo preparado.

No meio destes debates sobre o voto impresso (que apresenta uma tendência a não ser aprovado na Comissão Especial na Câmara) notícias falsas são suscitadas pelo debate e o contaminam. Nos últimos sete dias, o Boatos.org desmentiu nove notícias falsas relacionadas, direta ou indiretamente, ao assunto.

A primeira surgiu apenas para “aquecer” o debate. Ela apontava, erroneamente, que Rodrigo Pacheco havia acatado o voto impresso e que era preciso o incentivar por meio de uma votação popular. Esse boato viralizou, mas era só o início.

Depois que Bolsonaro (ou alguém que publicou em seu nome) fez posts no Twitter estranhíssimos sobre “chantagem” por parte de “Daniel” (algo totalmente sem provas e sem lógica), não demorou muito para publicações serem feitas em massa a fim de “fortalecer a tese em questão”.

Os nomes dos supostos citados apareceram em publicações de direita. Já no dia seguinte ao tuíte do presidente, desmentimos um texto falso que circulou falando que o ministro do STF Luís Roberto Barroso estaria sendo chantageado por José Dirceu para “rejeitar” o voto impresso. Fizemos o desmentido sobre a “trama” (obviamente falsa), mas a coisa não parou por aí.

Para “justificar a tese” de chantagem, publicações apontavam para “provas” de que a chantagem era real. Três boatos circularam neste sentido: 1) De Barroso havia defendido o voto impresso (algo falso e desmentido aqui). 2) Que a CIA havia entregado um “pen drive” com o vídeo da chantagem para Bolsonaro (algo ridiculamente falso). 3) Que um perfil no Twitter com nome de Imperador Dom Pedro seria a “prova” de que há chantagem (ainda mais ridiculamente sem lógica).

Sem conseguir qualquer prova da chantagem de José Dirceu contra Barroso, boateiros começaram a espalhar mais uma tese envolvendo o nome do petista. Desta vez, começaram a falar que ele estaria pagando (com dinheiro da China) propina para deputados não aprovarem o voto impresso. Além de a acusação estar no perfil fake do “imperador”, uma corrente falsa relacionada ao assunto começou a circular.

Houve ainda, informações falsas que agiram na frente do autoritarismo. Uma sugeriu que Mourão, em 2021, defendeu o golpe militar no Brasil. Outra apontava que o voto impresso já é lei e não precisaria ser questionado.

Por fim, alguém pegou todas as teses apresentados (e juntou a teorias da conspiração que a esquerda estava armando um atentado contra Bolsonaro) e jogaram em mais um texto atribuído a um “hackeamento” de WhatsApp por parte da CIA. Não é preciso nem dizer que é mais uma balela.

Todo esse processo revela uma prática que, possivelmente, vira a se repetir em 2022: o lançamento de um “grande boato” (no caso de hoje, que a esquerda não quer o voto impresso para fraudar as urnas nas eleições) acompanhado de algumas “histórias (falsas) comprobatórias” (como da chantagem de José Dirceu, da compra de deputados e da descoberta da CIA) e alguns “boatos anexos” (que serviriam, se fossem reais, como “prova do crime”). Ou seja: a tática está posta, cai quem quer (ou quem está distraído).

Trends da semana

As palavras mais buscadas no Boatos.org nos últimos sete dias foram, em ordem crescente, Covid deltaMercado livre, vacina vencidaMéxico fezAtacadãoVoto impressoIvermectina, Coronavirus cepa delta, vacinas vencidas e Atacadao.

Os desmentidos mais lidos do Boatos.org nos últimos 7 dias foram, em ordem crescente, sobre um suposto vale presente de 50 anos do Atacadão, um texto falso sobre sintomas da variante delta do coronavírus, sobre uma promoção falsa de “arraiá” de prêmios do Mercado Livre, sobre Barroso estar sendo chantageado por José Dirceu e sobre uma suposta exposição chamada o C* é Lindo em Salvador.

No Twitter, o conteúdo com o maior engajamento era o que desmentia que Barroso havia defendido o voto impresso em 2017. No Facebook e no Instagram, a matéria mais compartilhada era a que apontava Barroso estava sendo chantageado por José Dirceu.

No Telegram, o conteúdo mais visto foi o que desmentia o boato de que as vacinas contra a Covid-19 continham grafeno. Por fim, vídeo mais visto no YouTube foi o que desmentia a promoção falsa em nome do Atacadão.

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