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Anunciado por Bolsonaro, plano de moeda única não teve aval da área econômica

Por Redação Portal T5

05h00 - Atualizado 08/06/2019 às 12h45
Jair Bolsonaro (PSL)
Jair Bolsonaro (PSL) Foto: Reprodução / Internet

BRASÍLIA, DF, E BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Apresentado pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL), o plano de implementar uma moeda única para Brasil e Argentina não está em estudo e não faz parte de nenhuma análise técnica na área econômica no governo.
Em encontro com empresários na quinta (6), em Buenos Aires, Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, discutiram a ideia. O tema já teria sido debatido com o ministro da Economia de Mauricio Macri, Nicolás Dujovne.

Internamente, no Ministério da Economia, as afirmações sobre a criação da moeda única foram recebidas com cautela e aplicação de uma dose de realidade. Auxiliares de Guedes afirmam que não existe nenhuma análise sobre o tema em andamento na pasta.
Após as afirmações do presidente, o BC (Banco Central) se posicionou rapidamente. Por meio de nota, informou que não tem projetos ou estudos sobre eventual união monetária com a Argentina.

Levantar o debate sobre o tema neste momento não seria despropositado, avalia um membro da equipe econômica. O discurso pode fazer parte da estratégia política de Bolsonaro de mostrar que defende uma estabilização econômica da Argentina e, com isso, fortalecer politicamente o liberal Mauricio Macri, que deve tentar reeleição em outubro deste ano.
Nesta sexta (7), Bolsonaro afirmou que foi dado o primeiro passo para "o sonho" de unificar real e peso.

"Houve um primeiro passo para o sonho de uma moeda única. Como aconteceu com o euro lá atrás, pode acontecer o peso real aqui", disse o presidente em Buenos Aires.

Bolsonaro disse acreditar que o Brasil tem mais a ganhar do que a perder com a unificação. Para ele, a medida seria uma forma de barrar "aventuras socialistas" no continente.
"Uma nova moeda é como um casamento. Você ganha de um lado e perde de outro. Você às vezes quer ver o jogo do Botafogo e não consegue porque sua esposa quer ir ao shopping. Mas, como num casamento, a gente mais ganha do que perde. Temos mais a ganhar do que perder. Com uma moeda única damos uma trava às aventuras socialistas que acontecem em alguns países da América do Sul."

O presidente acrescentou: "Já falei para vocês que a economia não é meu forte, mas acreditamos no feeling, na bagagem, no conhecimento e no patriotismo do Paulo Guedes".
Embora Bolsonaro tenha sugerido que o plano começou a caminhar, um auxiliar de Guedes afirma que a proposta deve mesmo ser tratada como um sonho, algo que pode ser positivo no futuro, mas que hoje não é nada além de uma ideia, um ensaio.

A proposta de uma moeda única é uma ideia antiga de Guedes. Em 2008, em artigo publicado pela revista Época, ele defendeu a criação, para toda a América Latina, do "peso real". O nome é o mesmo do que foi apresentado agora na Argentina.

Na época, Guedes argumentou que a empreitada deflagraria um ciclo de reformas tributária, trabalhista e previdenciária, com efeitos positivos para todo o continente.

Desde que o Mercosul foi criado, os países do bloco aventam a possibilidade de criar uma moeda comum, mas nenhuma iniciativa nesse sentido foi concretizada devido às diferenças de políticas cambiais dos membros.

Neste momento, porém, os únicos que estariam negociando a nova moeda seriam Brasil e Argentina, deixando de fora, por enquanto, Uruguai e Paraguai.

A ideia, tratada como embrionária pelo governo, é questionada por especialistas e gerou críticas no meio político.

O ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman afirma se tratar de uma proposta sem sentido.

"É uma péssima ideia", disse. "Não é nem colocar o carro na frente dos bois, porque você não tem nem os bois ainda, nem o carro."

O economista diz que uma integração monetária exige o cumprimento de uma série de etapas anteriores, como harmonização de políticas fiscal e cambial entre os países. Ele cita o caso do euro, que nasceu após décadas de processo de integração econômica, livre-comércio e liberdade de mão de obra.

"Não temos nada remotamente parecido com isso. Supostamente, o Mercosul é uma união alfandegária. A gente não tem nem livre-comércio nem tarifa externa única."
Schwartsman ressalta que o nascimento da nova moeda ainda exigiria a criação de instituições supranacionais para cuidar do setor financeiro e da política fiscal. Leis comuns entre os dois países também precisariam ser aprovadas.

Para ele, a ideia contraria o discurso de Bolsonaro em defesa da soberania nacional.
"A gente abandonou o passaporte com o símbolo do Mercosul, mas estaria disposto a criar uma moeda única? [A proposta] envolve ceder uma soberania gigantesca", disse.

Também ex-diretor do BC e responsável pelo centro de estudos monetários do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia) da FGV (Fundação Getulio Vargas), José Júlio Senna afirma não ser otimista em relação ao resultado final da integração de moedas.

"É algo que precisa ser estudado com muito cuidado. O euro, por exemplo, está longe de ser algo que deu certo ou que foi bom para todos", disse.

Senna diz não acreditar que alguém no Ministério da Economia esteja pensando em implementar uma ideia desse tipo de maneira apressada. Ele ressalta que todas as diferenças entre os países precisam ser avaliadas.

"Fico com a sensação de que é enganoso você achar que economias que sejam complementares podem se dar bem em uma integração. Elas têm de ser semelhantes nas suas estruturas", afirmou.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), reagiu à proposta.
"Será? Vai desvalorizar o real? O dólar valendo R$ 6? Inflação voltando? Espero que não", disse em sua conta no Twitter.

Também pelas redes sociais, o presidente nacional do Cidadania, Roberto Freire, afirmou que, "em vez de pensar na tolice da moeda única, Paulo Guedes deveria se concentrar, além da reforma da Previdência, na economia brasileira, que não vai nada bem".

Sobre as opiniões contrárias à proposta, Bolsonaro declarou que as críticas são bem-vindas e argumentou que a ideia existe desde o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff (PT).
"Essa proposta existe desde 2011, e Paulo Guedes mostrou-se interessado, juntamente com o governo da Argentina, a voltar a estudar essa questão. Rodrigo Maia e qualquer que tenha criticado, é um direito, é um dever, estamos num país livre. As críticas são muito bem-vindas e nos alertam sobre a possibilidade de estarmos nos desviando do caminho certo", disse o presidente.

O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que o plano de criar o "peso real" é algo ainda embrionário, mas elogiou a ideia.

"Se houver possibilidade de ser factível isso, é um baita de um avanço, né? Você vê: a União Europeia tem sua moeda única, que é o euro. Se nós chegarmos aqui, na América do Sul, a um passo desse, acho que seria bom pra todo o mundo", disse Mourão.

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