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"Vaquinha online" arrecada mais de R$ 100 mil para dentista recém-formado que vivia em barraco em João Pessoa

Leandro Rodrigues, de 27 anos, aceitou apresentar ao mundo a realidade que ninguém vê.

Por Lillyane Rachel

19h46 - Atualizado 15/06/2019 às 20h24
Essa era a cozinha do barraco onde o recém-formado vivia
Essa era a cozinha do barraco onde o recém-formado vivia Divulgação/Redes sociais

As imagens de um rapaz simples, olhar sereno e esperançoso foram compartilhadas centenas de vezes nas redes sociais nessa sexta-feira (14). A história era sobre um recém-formado em Odontologia vivendo em situação vista por muitos como degradante, em uma comunidade de João Pessoa.

Chão de terra era base do barraco construído com madeira e papelão no bairro de Mandacaru. Livros da área de saúde se misturavam com um colchão em um balcão de madeira improvisado ao lado de um fogão feito de forma artesanal. No barraco, os sapatos brancos - gastos - destoavam na dureza do lugar.

Natural da cidade de Olho D´'água, no Sertão do Estado, Leandro Rodrigues tem 27 anos e faz parte de uma forte estatística atual em que jovens graduados que não tiveram a oportunidade do primeiro emprego na área de formação. Mas a história de Leandro vai além da falta de trabalho, ele também se encaixa nos índices de jovens com depressão. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgados no ano passado, o Brasil lidera o ranking de casos de depressão na América Latina. Conforme o órgão, quase 6% da população, sendo 11,5 milhões de pessoas, sofrem com a doença.

Início

Tudo começou há três anos quando o estudante perdeu o pai vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). "Ele era o meu apoio. Era o único que me ajudava", revive nas lembranças.

O pai faleceu antes que ele concluísse a graduação. Com força de vontade, sentindo na pele as dificuldades de uma sociedade desigual, Leandro superou a falta de privilégios e conseguiu terminar os estudos.

A dor da ausência desencadeou a depressão no jovem sonhador. O vazio trouxe uma sequência de sofrimentos que, aos poucos, vêm sendo amenizada depois que Talita, de 40 anos, conheceu a história do jovem dentista nesta semana.

Com esperança de dias melhores, Leandro aceitou gravar vídeos para apresentar ao mundo a realidade que ninguém vê.

Ao Portal T5, Talita Brasil, que também é odontóloga, contou que através da líder comunitária, responsável pelas gravações, soube da existência de Leandro e ficou comovida com a realidade do jovem sem qualquer estrutura para uma vida digna.

Sensibilizada, além de compartilhar os vídeos gravados pela colega, Talita decidiu fazer uma publicação nas redes sociais para ajudar a tirá-lo da precariedade. Em um dia de arrecadação, por meio de uma 'vakinha online', mais de R$ 100 mil foram obtidos.

Por causa das doações, a ação solidária já conseguiu tirar Leandro das condições precárias de moradia onde ele estava inserido e ele foi acomodado previamente em um quitinete, no bairro Castelo Branco, em João Pessoa.

De acordo com Talita, a reviravolta na vida está fazendo com que ele se sinta mais esperançoso com a chance para se restabelecer. A dentista contou que pretende também dar uma oportunidade de trabalho a Leandro e torná-lo colega de profissão em seu consultório.

Além de devolver a dignidade social e humana a Leandro, Talita ressaltou que outro foco é ajudá-lo a alcançar o sonho de reencontrar a mãe que vive em Patos, no Sertão do estado. "Dar uma vida melhor a minha mãe é o que eu mais quero", desabafa Leandro em um dos vídeos publicados.

Corrente do bem

"Sozinho a gente não consegue". Essa é a opinião do odontólogo Cassio Gadelha, que também participa da ação, ao relembrar a importância da força coletiva.

"Nossa ideia é dar todo o acompanhamento que ele precisa para ajudá-lo a se restabelecer socialmente. Queremos inseri-lo no mercado de trabalho e tornar possível a mudança de vida", ressaltou.

Neste sábado (15), Leandro recebeu a notícia que o seu novo lar vai ganhar a mobília completa doada pela rede de lojas Armazém Paraíba. A informação foi publicada nas redes sociais da empresa e a ação comoveu e deu esperança de que, com o esforço de cada um, é possível não só mudar vidas, mas torná-las melhores.

A grande corrente de solidariedade que se uniu em torno de Leandro traz à tona o sentimento de colaboração. "É pensar que com ações simples, com um gesto pequeno, nós podemos mudar a vida de tantas pessoas. Nós vivemos de forma meio egoísta, no nosso mundinho. A gente não se preocupa com o outro, não sabemos o que os outros passam. Com essa história temos a oportunidade de acreditar, sim, que ainda há humanidade nas pessoas. Que é possível acreditar no amor", postou uma internauta.

Doações continuam

A partir de agora, uma nova página na vida de Leandro está pronta para ser escrita. O caminho é longo e estes são apenas os primeiros passos. Quem quiser continuar enviando doações deve fazê-las através  deste endereço eletrônico.