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Trump ameaçou impor tarifas à Europa se países não denunciassem acordo com Irã, diz jornal

A informação foi divulgada nesta quarta-feira (15) pelo jornal The Washington Post

Por Carlos Rocha

20h27 - Atualizado 15/01/2020 às 20h05
Foto: Reprodução / Internet

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou na semana passada impor uma tarifa de 25% contra a indústria automobilística europeia se a França, a Alemanha e o Reino Unido não denunciassem o Irã por romper o acordo nuclear.

A informação foi divulgada nesta quarta-feira (15) pelo jornal The Washington Post, que cita uma fonte anônima dentro do governo americano. A medida representaria uma pressão inédita exercida pela Casa Branca contra seus mais tradicionais aliados no planeta. Segundo a publicação americana, diplomatas europeus classificaram a ameaça de Trump de extorsão.

Os três países europeus denunciaram formalmente Teerã na terça (14) por violar os termos do pacto nuclear de 2015, pelo qual o Irã se comprometeu a reduzir sua capacidade de produção nuclear -nenhum deles citou uma possível pressão americana ao justificar a ação. De acordo com o Washington Post, os europeus já estudavam denunciar Teerã antes da pressão americana e após receberem a ameaça de Trump, cogitaram desistir da medida para não parecerem fracos.

Em vez disso, porém, os diplomatas dos três países concordaram em manter em segredo a ameaça de Trump e seguir com o plano de denunciar o acordo nuclear. Com isso, serão realizadas reuniões entre representantes iranianos e europeus para tentar resolver a questão. Caso não haja consenso, o tema será levado ao Conselho de Segurança da ONU, que poderá reaplicar sanções contra Teerã, que haviam sido suspensas devido ao acordo internacional, firmado em 2015. Atualmente, o Irã é alvo de sanções dos EUA. Medidas similares decididas pela ONU aumentariam o isolamento internacional do país.

O processo de resolução dessa disputa pode levar até dois meses, caso não haja acordo nas etapas iniciais e seja necessário cumprir todo o caminho previsto no pacto. Os três países europeus disseram que agem de boa-fé, que buscam uma maneira de evitar a proliferação nuclear e que defendem que o acordo de 2015 volte a ser cumprido. Ressaltaram ainda que não estão se juntando à política de "máxima pressão" tocada pelos EUA.

 A União Europeia, que atua como garantidora do acordo, disse que o bloco não pretende retomar sanções contra o Irã. Após o anúncio europeu na terça, o Irã advertiu os europeus que ativar o mecanismo do acordo pode trazer consequências, mas que está aberto a conversar. "Se os europeus buscam abusar [deste mecanismo], precisam estar preparados para aceitar as consequências, que já lhes foram notificadas", disse um comunicado da chancelaria iraniana. "A República Islâmica do Irã, como no passado, está completamente a postos para apoiar qualquer ato de boa vontade e os esforços construtivos para salvar este importante acordo internacional", prosseguiu a nota.

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, país integrante do acordo, disse não ver espaço para usar o mecanismo de disputa, e afirmou considerar que isso pode tornar impossível a retomada do acordo.

A questão nuclear está no centro da disputa entre os EUA e o Irã, cuja tensão cresceu muito nos últimos meses. Em 2018, o governo Trump retirou os Estados Unidos do acordo internacional e voltou a impor sanções econômicas ao Irã.

Os demais países seguiram no tratado. Nesta terça, o premiê britânico, Boris Johnson, afirmou que "se vamos nos livrar do acordo, vamos substituí-lo e vamos substituí-lo com o acordo de Trump". No início de janeiro, o governo do Irã disse que se sentia livre para descumprir o combinado e enriquecer urânio acima dos percentuais previstos no documento.

A decisão foi tomada após os EUA matarem o general Qassim Suleimani, maior autoridade militar do país, em um ataque no Iraque em 3 de janeiro.

COMO FUNCIONA O MECANISMO DE DISPUTA

Se uma das partes considerar que outra não está cumprindo o combinado, o mecanismo de disputa pode ser acionado.

Passo 1 Primeiro, é formada uma comissão com representantes dos membros do acordo (Irã, Rússia, China, Alemanha, França, Reino Unido e a União Europeia; os EUA se retiraram em 2018). Há um prazo de 15 dias, que pode ser prorrogado, para se chegar a um consenso.

Passo 2 Se alguma das partes não concordar com a solução apresentada, começa uma nova rodada de debates, agora com a participação dos ministros das Relações Exteriores. Há mais 15 dias de prazo, prorrogáveis.

Passo 3 Se não houver acordo, pode-se então pedir a ajuda de um conselho consultivo, a ser definido. Há mais cinco dias de prazo.

Passo 4 A falta de acordo sobre o descumprimento de regras é notificada ao Conselho de Segurança da ONU, que terá 30 dias para analisar o caso e pode, inclusive, decidir sobre a retomada de sanções ao Irã.

Passo 5 A decisão do Conselho de Segurança precisa ser aprovada por ao menos nove votos a favor e não receber vetos dos EUA, Rússia, China, Reino Unido ou França. O conselho tem 15 membros.

Passo 6 Caso o conselho não se decida sobre o tema em 30 dias, as sanções contra o Irã serão retomadas automaticamente.