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Edifícios que contam histórias

Por Lillyane Rachel

13h57

O patrimônio histórico que compõe uma sociedade é garantia de identidade das origens de uma população e carrega consigo uma bagagem cultural de suma importância, considerando a época e o contexto na qual está inserida. O território brasileiro, com sua ampla diversidade agrega patrimônios da época de colonização, como a Capela do Engenho da Graça, no bairro Ilha do Bispo, em João Pessoa, construída em meados do século XVII e exemplo de arquitetura barroca. A Capela remete ao local de catequização dos índios, e na atualidade é o único resquício palpável desse antigo engenho que também era formado por casa-grande, fábrica e senzala.

Casa da Pólvora. Foto: Lillyane Rachel

Na contemporaneidade, é comum observar que esses patrimônios históricos, detentores de forte influência na formação da estrutura do corpo social, enfrenta resistência ao interesse da sociedade em massa. A Casa da Pólvora, localizada na ladeira São Francisco no centro de João Pessoa, é uma representação de legado do período colonial, sendo o lugar que armazenava armamentos e munições. Com pouco mais de 300 anos, a Casa que atualmente abriga além de variadas atrações, o Museu Fotográfico Walfredo Rodriguez, é referência para destinos de passeios turísticos. Entretanto, essa rota não é uma das mais buscadas pelos residentes da capital paraibana, muitos desconhecem a importância que permeia um dos grandes marcos herdados da construção histórica da cidade.

Igreja São Francisco. Foto: Lillyane Rachel

A Constituição Federal assegura que o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos seus direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização das manifestações culturais. O Superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em João Pessoa, José Carlos de Oliveira, afirma que além de proteger e preservar bens culturais, compete ao órgão incentivar a educação patrimonial através da conscientização social com eventos, seminários e fóruns. Ele acredita que a temática cultural ainda está no processo de ascensão no país, e que “ainda não somos um povo instruído na ideia de cuidar, resgatar e valorizar patrimônios. A sociedade ainda não conhece o que é resgate cultural ou o que é preservação memorial, é uma minoria que se integra a isso.”

Ele fala ainda sobre a importância de que não ocorra a extinção do passado, “o desenvolvimento humano passa pelo científico e para atingir progresso, é necessário estudar o passado, e para que isso aconteça, é preciso que exista algo palpável, para comprovar a História. A preservação desses bens patrimoniais assegura manter todos os âmbitos da sociedade, seja econômico, político ou social, então a importância da preservação é manter o memorial vivo e capaz de fornecer caminhos para um futuro próspero”, declarou.

O Centro Cultural São Francisco é mais um patrimônio nacional localizado no Centro Histórico de João Pessoa, apresenta um grande marco do Barroco no Brasil e é dotado de uma estrutura arquitetônica constituída pela Igreja, o Convento de Santo Antônio, Casa de Oração e Claustro da Ordem Terceira de São Francisco. Esse patrimônio representa a força religiosa no período colonial que reflete na atualidade, comprovando a influência que o passado inevitavelmente exerce nas gerações seguintes.

A estudante de Arquitetura, Maísa Alves, 24, acredita existir união entre o patrimônio histórico, a arquitetura e identidade cultural. “As diversas formas de ocupação humana de um espaço, seja no âmbito público ou privado, nos fornece informações essenciais acerca do modo como a sociedade enxerga, interpreta, delimita e vivencia determinado território em um período específico. Esse olhar particularizado sobre o espaço vai sendo modificado à medida em que essa sociedade passa por transformações sociais, políticas e econômicas ao longo do tempo. Por isso é tão importante preservar nosso patrimônio histórico, porque ele nos conta a nossa própria história e evolução. Só assim somos capazes de construir um olhar crítico sobre nós mesmos enquanto habitantes de um espaço”, disse.

Em relação ao reconhecimento da sociedade com os patrimônios históricos, Maísa percebe que ainda há muitas lacunas a serem preenchidas. “Infelizmente a nossa população não é educada para perceber o patrimônio como algo importante para a cidade, estado ou país, por justamente não compreender que entender o passado é olhar para o nosso futuro. O reflexo dessa mentalidade pode ser traduzido pela ausência de cuidado do poder público com relação ao nosso patrimônio histórico, exemplificado pela destruição do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Olhando para o nosso Centro Histórico, esvaziado, é perceptível como é desvalorizado e esquecido pela própria população. João pessoa é a 3ª capital mais antiga do Brasil, conta com um acervo arquitetônico singular, mas quantas pessoas que vivem aqui foram mais a museus europeus do que as nossas igrejas das ordens franciscana, beneditina ou carmelita, por exemplo? Essa conscientização deve ser feita desde criança, através dos pais e incentivo nas escolas.”, declarou.

A jovem ressalta ainda a capacidade desses espaços de influenciarem emocionalmente as pessoas e afirma: “A forma como ocupamos a nossa cidade, por exemplo, está intimamente ligada à nossa esfera emocional, aos nossos sentimentos, raízes, lembranças, memórias e também a nossa conexão com as outras pessoas. É um universo de relações afetivas com o espaço que foram construídas ao longo de anos de convivência, sejam positivas ou negativas.”

O estudante João Pedro, 20, contou que vive em João Pessoa desde que nasceu e que só visitou os principais pontos turísticos da cidade pela primeira vez há três anos em uma aula de campo quando concluía o ensino médio e precisava acrescentar conteúdo para o Exame Nacional que o faria ingressar na Universidade. Ele disse que hoje reconhece a importância de conhecer a história das suas raízes, mas afirmou que durante as duas décadas de vivência, nunca havia se sentido cativado, tampouco percebido que isso é um exercício de cidadania.

Foto: pixabay/ilustrativa

Memória JP

O projeto Memória João Pessoa é um projeto de extensão vinculado ao Departamento de Arquitetura da UFPB e tem como temática a educação patrimonial. A finalidade é levar os conhecimentos relacionados ao patrimônio, história e memória da cidade de João Pessoa para a população, e assim conscientizar sobre a importância de conservação. O projeto, que nasceu em 2006, foi idealizado pela professora Maria Berthilde Moura Filha, e teve início com um website o memoriajoaopessoa.com.br.

A partir de 2013, são realizadas oficinas em escolas das redes pública e privada da cidade para diversas faixas etárias e abordam temas como patrimônio, identidade, tombamento e conservação, relacionando-os com a cidade de João Pessoa. Os conteúdos ministrados são transmitidos de forma simples buscando facilitar o entendimento de todas as idades. Um exemplo são as realizadas para crianças de fundamental I e II nas quais o projeto faz um passeio virtual pelo centro de João Pessoa, mostrando algumas de suas principais edificações e sua importância, estimulando o interesse nas crianças.