quinta-feira, 13 de agosto de 2020
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Hong Kong não terá fogos no réveillon 2020

A tradicional festa perderá parte do tradicional brilho.

Por Redação Portal T5

07h04
Tradicional queima de fogos em Hong Kong
Tradicional queima de fogos em Hong Kong Foto: Reprodução / Internet

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando o relógio bater meia-noite no próximo dia 31 de dezembro, os céus de Hong Kong não estarão coalhados de fogos de artifício pela primeira vez em dez anos."Segurança pública", alegou como motivo do cancelamento da festa o Escritório de Turismo da região chinesa.

Segurança, de fato, mas pelo temor das autoridades de que o evento disparasse algum grande protesto na cidade-Estado reabsorvida por Pequim em 1997, após 155 anos de domínio britânico.

Grupos de jovens ativistas que organizam protestos prometem se mobilizar, segundo mensagens em grupos na internet. Eles não querem deixar arrefecer o ímpeto dos atos que chacoalham Hong Kong há seis meses.

A escuridão relativa nos céus no Réveillon prenuncia mais um ano sombrio na região. O território com 7,4 milhões de habitantes é o maior desafio do colosso comunista continental que a controla.

Os maiores atos desde a volta da gestão chinesa à cidade foram disparados por uma tentativa de aprovação de lei, pelo Executivo local, facilitando a extradição de cidadãos honcongueses para o sistema judicial da ditadura continental.

Pequim mantém Hong Kong como uma ilha capitalista e liberal, parte do arranjo de sua devolução, no chamado "um país, dois sistemas" que poderá ser revisto legalmente a partir de 2047.

Só que a proposta de lei de extradição, assim como uma iniciativa semelhante em 2003, foi vista como uma forma de começar a burlar a liberdade local. Naquele ano, multidões obrigaram a mudança legal, mas o governo conseguiu dividir a oposição, que acabou se desorganizando.

Neste ano, milhões foram às ruas, e os protestos deixaram cerca de 6.000 presos e ao menos duas pessoas foram mortas de maneira indireta.

A lei foi jogada fora, mas, diferentemente de 2003 e de outros episódios em 2009 e 2014, os manifestantes permanecem com sua agenda, que inclui o ponto mais nevrálgico para Pequim: eleições universais em todos os níveis.

O Partido Comunista já disse que isso não acontecerá, e na semana passada o seu líder, Xi Jinping, reafirmou o apoio a Carrie Lam, a controversa executiva-chefe de Hong Kong.
Na eleição para usualmente inofensivos conselhos locais, no fim de novembro, a oposição abocanhou uma vitória esmagadora em 17 de 18 deles.

A próxima batalha, que deverá manter acesos os protestos, está marcada para setembro. Será a eleição para o Conselho Legislativo, que tem poderes relativos para moderar o Executivo. Hoje, 35 de seus 70 membros são eleitos diretamente, e é esperado que a oposição tenha uma porcentagem de votos semelhante à da votação local –60% ante 40% dos pró-Pequim.

A questão é que os assentos restantes são eleitos por entidades que representam setores profissionais, uma herança britânica que serve aos comunistas para manter um controle tácito do voto.

Para o deputado Eddie Chu, um dos mais vocais oposicionistas no Conselho, haverá pressão para que isso mude legalmente antes do pleito de setembro. "Por isso seguiremos nas ruas", diz.

Já a eleição para o Conselho Executivo, que só ocorre em 2022, é bem mais difícil de manejar. São 1.200 delegados que votam, numa composição complexa que favorece uma sutil pressão chinesa. "A mudança tem de vir, nem que seja aos poucos", diz Pak Fu-yi, ativista baseado em Kowloon, porção continental do território.

A confusão dos protestos já projetou um PIB negativo de 1,3% neste ano para Hong Kong, e o turismo despencou –em novembro, foi um tombo de 56% no número de turistas, em comparação com o mesmo mês do ano passado.

Após a vitória da oposição no pleito para os conselhos locais, os atos voltaram a se concentrar nos fins de semana, mas a dinâmica tende a acompanhar os movimentos até aqui inflexíveis de Lam e de Pequim.

Para Xi, o problema é enorme. Fazer concessões à oposição pode levar a movimentos semelhantes em outras regiões, já que o país é uma colcha de retalhos demográfica dominada pela etnia Han (90%).

Por outro lado, a China precisa de Hong Kong e sua altamente desregulada economia para fazer operações externas com facilidade. Cerca de 65% de todo fluxo de investimentos externos que entra e sai da segunda maior economia do mundo passa por ali, uma realidade que não muda do dia para a noite.

Com tudo isso, o impasse de solução imprevisível tenderá a permanecer como uma das grandes manchetes de 2020.