quarta-feira, 13 de novembro de 2019
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Morre, aos 75, Luiz Rosemberg Filho, cineasta de produção pedregosa e encantada

Por Redação Portal T5

04h00 - Atualizado 19/05/2019 às 22h26
Luiz Rosemberg Filho
Luiz Rosemberg Filho Foto: Reprodução / Internet

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em 1981, momento da morte de Glauber Rocha, Luiz Rosemberg Filho escrevia No Jornal do Brasil: "Constato o horror dessa morte, mas não entrego o barco. É preciso olhar adiante (...) Não dá para ter um coração igual a Glauber, mas é preciso continuar a luta."

Faz quase 40 anos –e algo permanece. Desta vez é Rosemberg, Rô para os amigos, que se vai. Ele morreu aos 75 anos, na madrugada deste domingo (19), no Rio de Janeiro.
Algo que ele anunciou já há algum tempo: tinha câncer. É preciso continuar a luta, escreveu. Seu cinema sempre foi uma resposta a isso. Sempre foi, antes de tudo, político, desde "O Jardim das Espumas", onde a alegoria política está por toda parte, seja na intriga envolvendo um planeta pobre visitado por pessoas de um planeta rico, que desejam fechar acordos econômicos.

A alegoria era tão pouco alegórica que o filme logo foi barrado pela censura. Glauber Rocha mesmo o define: "uma sopa de pedras bem temperada". O que resume em boa medida o estilo de Rosemberg. O que importava para ele era o tempero, ou, vamos traduzir assim, as ideias, e elas tinham de emergir pedregosas, duras, por vezes intoleráveis.

Não foi só a censura, foi também "o mercado" que pareceu sempre um pouco assustado com suas sopas de pedras invariavelmente políticas. Ao longo dos anos 1970 sua preocupação básica não se altera: o país, a dificuldade de viver (numa ditadura, na violência), a exploração, a exploração do país pelos norte-americanos. Tudo isso presente em "Assuntina das Amérikas" (1976) e num modo já mais contido, reflexivo, em "Crônica de um Industrial" (1978), o que não impediu os filmes de continuarem parando na censura.

Eles carregam a percepção do irreconciliável em sua estrutura experimental, e ao mesmo tempo, permitem pressentir já a presença do afeto –nem que seja na negatividade, perceptível em "O Santo e a Vedete" (1982), tentativa bem pouco feliz de mimetizar e ao mesmo tempo negar a comédia erótica.

O lado afeto talvez tenha ficado em segundo plano ao longo da maior parte da obra, em vista das questões imediatas –políticas–  que o preocupavam. É muito difícil quem o conheceu pessoalmente não ter se deixado fascinar pela afetividade de cada um de seus gestos, pensamentos, palavras.

Talvez esse lado tenha emergido plenamente no momento final, quase mágico, de sua obra, e que, pessoalmente, me parece de longe o melhor: aquele em que como que deixa de combater a realidade adversa do mundo para melhor analisá-la. É o momento que coincide com seu encontro com o produtor Cavi Borges (uma versão brasileira de Roger Corman, com seus filmes ao mesmo tempo econômicos e talentosos) e que lhe permite o retorno ao longa-metragem após uma ausência de 32 anos.

"Dois Casamentos" (2015) será talvez esse filme do afeto, da palavra que se transforma, filme em que o feminino irrompe no seu universo, numa experiência que não deixa de remeter ao cinema de Fassbinder e a sua remissão tão frequente ao teatro.

"Dois Casamentos" marca também o encontro com Patricia Niedermeier e Ana Abbott, as atrizes notáveis que se reencontrariam em "Guerra do Paraguay" (2017): manifesto de amor à mulher e horror à guerra (o masculino), à violência, com uma concisão, um rigor e uma direção de atores (ou seja, atrizes antes de tudo). Não havia mais censura, mas "o mercado" ainda estava longe de absorver esse trabalho por vezes pedregoso, por vezes encantado, concebido entre o horror e a poesia, o amor e a guerra.

Antes de se internar na clínica São Vicente, na Gávea, Rosemberg finalizou um filme inédito, afirmou o diretor e professor de cinema João Lanari ao jornal O Globo.
O corpo do cineasta será velado a partir das 11h desta segunda (20), no Crematório Memorial do Carmo, no Caju, no Rio de Janeiro. A cremação será às 14h.

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