Superação sobre duas rodas

Atleta paraibana vence limites de doença e coleciona conquistas pelo Brasil

Portadora de espondilite anquilosante, ciclista enfrenta barreiras de doença incurável com ajuda do mountain bike

Ao trepidar no solo com a parceira de duas rodas, Rayssa Nayalla, 29 anos, sente correr pelo corpo os efeitos da endorfina, da adrenalina e de diversas outras substâncias químicas proporcionadas pelo prazer da atividade física. A cada estrada ou curva ultrapassada com a bicicleta, a estudante paraibana de Educação Física vence limites. 

A superação de desafios cobrada pela disciplina do esporte sempre esteve presente na vida da atleta, ainda mais quando descobriu ser portadora de uma doença incurável, há pouco mais de quatro anos. 

Dores persistentes nas costas, por meses, acompanhadas de sensação de rigidez matinal foram os primeiros indícios de uma doença grave sentidos pela atleta. Visitas a consultórios médicos viraram rotina, mas o diagnóstico demorou a ser revelado. "As dores só aumentavam e comecei a ter restrições de atividades físicas na academia, eu não sabia o que tinha". 

Paliativos eram receitados, mas as dores e limitações só aumentavam. Até que em uma das crises, ao perder o movimento do quadril, a jovem não conseguiu mais andar. 

"Na época com tanto uso de corticoides cheguei a ganhar 25 quilos por conta da medicação. Os médicos que frequentei acreditavam que eu estava com uma hérnia, eu só descobri que tinha uma doença autoimune após a realização de um exame específico encaminhado por um médico reumatologista", contou.

O teste sanguíneo laboratorial denominado HLA-B2 detectou a espondilite anquilosante, doença reumática crônica, de natureza inflamatória que tem como característica fortes dores na região da coluna vertebral. De acordo com o Ministério da Saúde, os acometidos pela enfermidade geralmente sentem os primeiros sintomas na região lombar, podendo se espalhar do pescoço até as nádegas, além de outras articulações, como quadril, joelhos e tornozelos.

Segundo especialistas, os afetados podem sentir dor mesmo quando estão em repouso. A doença pode provocar calcificação nas áreas atingidas, levando à perda de mobilidade e outras complicações, caso não haja tratamento. Nos quadros mais graves, podem ocorrer lesões na pele, pulmões, coração, intestinos e olhos.

Superação sobre duas rodas

Esporte e tratamento

No Brasil, a doença, mais frequente em homens entre 20 e 30 anos, atingiu a estudante pouco depois da entrada no curso da área de saúde. "Nem todo mundo entendia. No começo eu tinha que explicar que estava sentido dores, que minha coluna estava inflamada, mas as pessoas achavam que era frescura. Eu não conseguia correr ou saltar e me prejudicava em atividades práticas", disse. Com o passar do tempo, as dores cada vez mais fortes também abalaram o psicológico da jovem. "Me questionava muito o motivo disso acontecer comigo. Chorava demais", lamentou.

O curso de Educação Física e os esportes foram alento para a atleta no enfrentamento à doença, porém, a prática especificamente de mountain bike, que a princípio poderia prejudicar as dores na região da articulação sacro ilíaca pelo impacto, ocasionou evolução no tratamento da patologia da ciclista. 

Rayssa pedala todos os dias de sol ou chuva pelas ruas de João Pessoa, a bicicleta é utiliza por ela para o esporte e meio de transporte. Além de um estágio em uma academia de musculação, recentemente, a esportista abriu uma escolinha de ciclismo para adultos e crianças, onde instrui atletas iniciantes. "Eu me supero todos os dias, às vezes, estou sentindo muitas dores, mas mesmo assim saio para pedalar uns 70 km. É como me sinto bem", afirmou. 

Recentemente, no campeonato Brasil Ride, em São Paulo, Rayssa percorreu 187 quilômetros, por etapas, em provas que duraram três dias seguidos e conquistou o segundo lugar do pódio. Agora, ela se prepara para a próxima etapa da prova, que é uma das mais importantes e desafiadora da carreira, o circuito de competições que será de sete dias. 

"No pedal eu esqueço a dor e me supero todos os dias"

Rayssa Nayalla - Atleta

Atualmente, aliados ao ciclismo, os medicamentos, sessões de fisioterapia e variações na dieta fazem parte do tratamento da doença de Rayssa. 

A estabilização lombo-pélvica age para amenização do impacto da trepidação provocada pelos obstáculos nas competições que podem acarretar dores. Uma vez por semana, a ciclista faz sessões fisioterapêuticas para fortalecimento. "Ela precisa de estabilidade na região lombar para gerar potência nas pernas, como também suportar a impactação", explicou o fisioterapeuta Thales Sales. Os exercícios ativam o nível consciente do corpo da atleta. Durante as competições a estabilidade da lombar é feita de maneira automática. "É um comando novo dado ao sistema nervoso central que ao poucos assume um novo padrão", acrescentou. 

A aplicação de uma injeção diária produzida fora do país também entrou na rotina de Rayssa. O produto age no sistema imunológico e foi o único que conseguiu reduzir os sintomas, como também melhorou a capacidade física da paciente. O medicamento Humira que custa entre R$ 9 mil e R$ 10 mil foi receitado pelo médico especialista em reumatologia e é fornecido gratuitamente pelo Centro Especializado de Dispensação de Medicamentos Excepcionais (Cedmex).

dieta nutricional também passou por mudanças, por conta de alimentos que podem ativar o processo inflamatório e piorar as dores. "Açúcar, farinha branca, álcool e enlatados em geral prejudicam meu organismo diretamente", contou.

A vida da atleta mudou completamente depois da descoberta da doença, contudo, obstáculos no percurso e linhas de chegada ultrapassadas ensinam a cada dia o poder da superação, do amor pelo esporte e a vida. Além das barreiras pessoais, a doença aprimorou a generosidade: "Hoje eu tenho outro olhar. A doença me ensinou a enxergar as limitações de outras pessoas. Às vezes, somos muito ativos e não conseguimos perceber a dificuldade dos outros", afirmou.

SUS

Assistência na saúde pública

Apesar de possuir plano de saúde, a paciente é beneficiada pelo Cedemex ao receber os medicamentos de alto custo. O centro disponibiliza remédios excepcionais de segunda e terceira linha de tratamentos. Os interessados devem preencher junto ao médico a documentação oferecida no endereço eletrônico: portaldacidadania.pb.gov.br, realizar os exames exigidos e dar entrada no serviço.

No Brasil, o acompanhamento de pessoas com doenças reumáticas é oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) de forma ampla e integral. De acordo com o Ministério da Saúde "foram instituídas políticas em que estão inseridas o acompanhamento/tratamento à pessoa com doença reumática, o que inclui o atendimento aos pacientes com espondilite anquilosante, uma inflamação crônica que afeta preferencialmente a coluna vertebral".

A assistência na Atenção Primária oferta cuidados clínicos em equipe multiprofissional, incluindo acolhimento, avaliação de história clínica e investigação com exames laboratoriais (exemplo fator reumatoide) e de imagem, além de tratamento com práticas integrativas e complementares, analgesia medicamentosa e não medicamentosa, cuidados em fisioterapia e sessões de acupuntura. Já na Atenção Especializada são disponibilizadas consultas com médico reumatologista e ortopedista e outros profissionais da saúde, além de procedimentos cirúrgicos e reabilitação física. A equipe é multiprofissional composta por fisioterapeutas, enfermeiros, psicólogos, terapeuta ocupacional, médico clínico, médico ortopedista, médico reumatologista, dentre outros profissionais que integram as equipes de saúde, com informou a Pasta ao Portal T5.

O Ministério da Saúde ainda reforçou que neste ano foram acrescentados mais dois medicamentos para o tratamento da espondilite anquilosante: certolizumabe pegol e secuquinumabe; totalizando 11 produtos.