terceira idade

Poder da música recupera autoestima de idosos com Alzheimer

Tratamento proporcionado por estudantes da Universidade Federal da Paraíba, ajuda pacientes com transtornos na memória provocados por demências

Memórias são como figurinhas coladas em álbuns reunidos dentro de uma caixa de recordações protegida dentro de uma gaveta do guarda-roupa. Para muitos, as lembranças colecionadas podem ser revividas através de perfumes, músicas, sabores e até pelo toque de um abraço. Porém, o passar do tempo faz com que algumas imagens sejam colocadas por cima de outras, escapando naturalmente da nossa visão.

Para alguns, depois de anos, as páginas da vida preenchidas por histórias ficam difíceis de alcançar no fundo do armário. Elias Queiroz, 75 anos, morador de João Pessoa, nem imaginava que isso poderia acontecer, quando saiu da cidade do Recife para morar na capital paraibana há 33 anos.

Hoje o idoso tem dificuldades de relembrar a infância no bairro praiano do Pina, no Recife, dos campeonatos de futebol que disputou e até do casamento de 50 anos, com a companheira de toda vida. A perda de memória causa pelo Alzheimer é incurável e cruel com as recordações. 

As áreas normalmente mais atingidas pela doença são as de células nervosas (neurônios) responsáveis pela memória e pelas funções executivas que envolvem planejamento e execução de atividades complexas. O Alzheimer causa redução das funções cognitivas, impossibilitando também as relações sociais, além de prejudicar o comportamento e a personalidade, como afirmam especialistas.

Segundo dados da Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz), no país há cerca de 1,2 milhão de casos, a maior parte deles ainda sem diagnóstico. Na Paraíba, de janeiro a julho deste ano, 2.523 usuários da saúde pública receberam medicamentos para o tratamento da demência. Os dados são da Secretaria de Estado da Saúde (SES) e fornecidos pelo Centro Especializado de Dispensação de Medicamentos Excepcionais (Cedmex) ao Portal T5.

Nos idosos, as demências podem causar dependência progressiva, além de causar depressão, insônia, irritabilidade, desconfiança e ansiedade.

O tratamento

Ao lado da esposa, Elias encontra uma vez por semana os estudantes da área de saúde da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em um dos ambientes do Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW). O projeto de extensão Musicalmente utiliza o poder da música para ajudar oito pacientes a conviver e amenizar os transtornos causados pelo Alzheimer na saúde.  

Durante as sessões, o paciente recorda os momento da vida através das canções tocadas e cantadas pelos alunos. "No primeiro momento coletamos os dados dos pacientes e fazemos uma análise sobre a demência e há quanto tempo houve o diagnóstico. Depois conversamos com parentes e fazemos uma lista de músicas que podem ter marcado de alguma forma a vida dessas pessoa", contou a estudante de Medicina, Nathália Immish. 

O método desenvolvido na UFPB é inspirado em projetos da Espanha e Estados Unidos e recebe os pacientes encaminhados por médicos do HULW. "Cada memória tem um registro e normalmente tem um vínculo musical. Lembrando também que nossa vida é muito musical. Outro ponto a destacar é a importância do projeto para a interação social com os cuidadores e também para a localização temporal e espacial, associando a música com períodos do ano", destacou a geriatra e coordenadora do projeto Manuella de Sousa Toledo.

No tratamento, as músicas chamadas de autobiográficas possuem estreita relação com a vida e histórias dos pacientes, retomando lembranças sentimentais. O método funciona como uma terapia alternativa dos sintomas neuro-comportamentais em síndromes demenciais. O grupo de 15 estudantes busca canções que foram significativas em algum momento do passado dos envolvidos, e apesar de auxiliar a atividade cerebral ligadas à memórias, proporcionam diversos outros benefícios. "O retorno das memórias é estimulado pelos idosos, mas além disso também é importante ressaltar a diminuição dos sintomas da depressão, como também a melhora a qualidade de vida e das relações entre pacientes e cuidadores", completou. 

Durante a sessão, os olhos desencontrados de Elias pareciam procurar referência do local onde estava, algumas vezes, quando questionado, o idoso não sabia responder. 

Os problemas na vida do idoso, provocados pela demência, surgiram há menos de dois anos. Aos poucos, o caminho de casa percorrido todos os dias não era mais lembrado. Parecia apenas distração até a confirmação do diagnóstico. "Ele começou a desviar o caminho que fazia todos os dias ao buscar o neto de carro na escola", lembra a companheira, Diceia Queiroz. 

No decorrer das músicas tocadas pelos estudantes, as memórias retomam histórias do passado. As letras das canções foram relembradas por ele e ditas antes mesmo do cantor. "Elias aqui recorda várias coisas, apesar de esquecê-las assim que chega em casa. Mesmo assim, depois de cada sessão, ele fica diferente", disse a acompanhante.

"Música é vida. Quem vem para cá não adoece, fica bom"

Elias Queiroz - Aposentado

Com 71 anos, Diceia, além de cuidar do esposo, também enfrenta os detrimentos trazidos pela idade. O peso da rotina atualmente acarreta prejuízos ao sono da idosa, que recorre aos remédios de tarja preta. 

Nas sessões ao lado do marido, as músicas cantadas na terapia também proporcionam bons momentos para ela, como a recordação do primeiro beijo em um baile de carnal no Recife. "Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval!", entre risos e lágrimas, o versos de Máscara Negra, cantada por Dalva de Oliveira em 1967, lembraram o início do romance, há mais de meio século.

A capacidade da música é reconhecida por despertar sentimentos e promover múltiplas sensações. Em conjunto com a Medicina, o poder das melodias impulsiona emoções, como também garante a evolução na autoestima dos idosos, driblando o desânimo, garantindo bem-estar e desenvolvimento, comumente fragilizados na terceira idade.