Atuação feminina preserva atividade rural na Paraíba

Luta por reconhecimento, respeito e dignidade faz de agricultoras do Brejo paraibano exemplo de empoderamento feminino no meio rural.

O chapéu na cabeça esconde os raios de sol dos olhos que buscam as raízes mais desenvolvidas no solo. Nos canteiros da verde plantação, a terra entrega às mãos o necessário para alimentar o corpo e alma. Ao fim da colheita, a enxada da agricultora de 56 anos encontra o ombro como apoio, enquanto os alimentos, em uma trouxa feita com pano, vão à cabeça, lugar onde o equilíbrio não hesita. O caminho de volta do roçado não guarda surpresas, mas esconde lembranças de todas as fases de anos vividos no campo.

Ao voltar para casa, o alimento é separado, limpo e preparado. Após ir à panela, serve os moradores da pequena casa do Sítio Videl, localizado no município de Solânea, no Brejo do estado. 

A rotina de todos os dias no campo é a primeira lembrança da infância de Terezinha. Pela lavoura, ela criou os cinco filhos que seguiram seus passos. As gerações de agricultores na família são tradicionais em incontáveis épocas.

Na roça da agricultora brotam feijão, macaxeira, inhame, batata doce e milho, todos colhidos também pelas mãos da filha, Maria do Céu, que aprendeu com a mãe como preparar a terra e a valorizar o que ela ensina. 

Na contramão do que já foi comum na zona rural, Dona Terezinha descobriu a importância da autonomia no trabalho através da união entre as mulheres agricultoras na década de 1980. Debatido no meio urbano, mulheres rurais também lutam há décadas pelo direito à dignidade. 

Em palestras, passeatas e encontros, ela conheceu dirigentes de movimentos e líderes sindicais, em busca de aprender e assumir o empoderamento

Margarida Maria Alves foi uma das sindicalistas que inspirou a agricultora. A paraibana assassinada em 1983 foi uma das primeiras a ocupar cargos em direções de sindicatos no Brasil. Após a morte, a luta influenciou a Marcha das Margaridas, criada em 2000.

Meu orgulho é ter meus filhos todos na agricultura. Eles são donos de seu pouquinho de roçado. Sabem o que é um trabalho e não comprar o alimento diariamente para sua mesa porque sabem o que é ir para roça e trazer para dentro de casa.

mulheres do campo

Militância

Dona Terezinha e a filha compreenderam que a união e a luta sindical podem trazer melhorias na saúde, educação, reforma agrária e a aposentadoria rural para as agricultoras. "Depois que mataram Margarida Maria Alves percebemos que não poderíamos baixar a cabeça. Mataram uma margarida, mas surgiram várias outras", afirmou a militante. 

Mãe e filha são parte de um grupo composto por mais de seis mil mulheres trabalhadoras rurais nomeado de Polo da Borborema, que abrange 13 municípios paraibanos. Uma associação de direito civil  que atua para o fortalecimento da agricultura familiar e a promoção do desenvolvimento rural sustentável dá apoio social e profissional às agricultoras. "A partir do momento que entende-se como funciona o trabalho das mulheres, onde elas estão presentes e quais desafios existem nesse espaço, nós conseguimos buscar soluções para desenvolver esse ambiente", analisou Nirley Lira, assessora técnica da AS-PTA.

Em solânea, com a ajuda da mãe, Maria do Céu lidera o sindicado de trabalhadores agrícolas com 5 mil pessoas, formado em sua maioria por mulheres, com 3,5 mil associadas. "Temos a necessidade de defender o espaço da mulher sempre por termos sido vítimas do machismo e do patriarcado. Agora nos reconhecemos como mulheres, que lutamos e buscamos junto com a família, dialogando a igualdade social entre homens e mulheres", contou.

mulheres do campo

Sementes da paixão

O aprimoramento do plantio nos roçados de pequenos trabalhadores rurais depende diretamente das sementes que são cuidadas para brotar os alimentos. Fugindo do uso de agrotóxicos, os lavradores do Polo da Borborema possuem a estratégia de armazenar os grãos naturais para estoque e distribuição. 

O banco de sementes comunitário ajuda no compartilhamento dos materiais para os iniciantes ou durante períodos de dificuldade. Na Paraíba, as sementes crioulas são identificadas como sementes da paixão. A nomenclatura ficou conhecida após uma declaração de amor feita por um agricultor no 1º Encontro Estadual de Sementes Crioulas, em 2000, conforme o programa Semear Internacional. 

O cultivo vindo desse tipo de alimento insere os produtos de Dona Terezinha e Maria do Céu na agroecologia, categoria de plantio que respeita a natureza integralmente. As agricultoras retiram o sustento da terra, mas em troca devolvem respeito. 

Na região, os agricultores acreditam que as sementes guardam histórias, conservam as memórias e resgatam o compartilhamento de afeto e notoriedade. Afirmando que o alimento vai além do físico. Os campos, as florestas e água garantem a vida diretamente aos índios, quilombolas e camponeses. Da terra, brotam as raízes que impulsionam força, coragem e luta por direitos ao trabalho, igualdade e democracia.