Atuação feminina preserva atividade rural na Paraíba

Mulheres negras de uma comunidade quilombola erguem o sonho de independência financeira e profissional a partir do cultivo e preparo de alimentos colhidos no quintal de casa.

Nas terras de uma comunidade quilombola ocupadas há mais de 100 anos são colhidas as raízes da liberdade para um grupo de mulheres do distrito do Gurugi, no município do Conde, no Litoral Sul da Paraíba.

O cultivo de batata doce, inhame e macaxeira deu a oportunidade de ir além da economia rural de subsistência tradicional na região, a partir da construção de uma cozinha nos fundos da associação da comunidade. Entre os frutos hoje colhidos, as mulheres encontraram cada vez mais identidade e reconhecimento. 

Herdeiras de anos de privação social e econômica, há danos do passado ainda presentes, mesmo após mais de um século da libertação dos escravos. Nas mãos de Claudineide Rodrigues, as marcas da enxada trazem a lembrança do roçado quando a renda gerada com a colheita era somada ao benefício recebido pelo Bolsa Família, que possibilitava o sustento da casa. "Mesmo sem ver nada nós tivemos que acreditar para poder mudar nossa história", disse.

Eu saí da roça e hoje me considero uma empresária!

Claudineide Rodrigues

A realidade começou a mudar há quatro anos com a visita de equipes técnicas de capacitação do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) que realizaram o acompanhamento para iniciação e formação de grupos profissionais na comunidade.

A reunião de dez integrantes do assentamento quilombola possibilitou a criação das Mulheres Negras do Campo.

Com os alimentos colhidos nas lavouras dos quintas de casa, as agricultoras e cozinheiras produzem, de forma natural, pães, doces e salgados feitos com raízes. 

A visão de agricultura familiar para as integrantes do projeto mudou após a capacitação e o início das atividades. Com reconhecimento de uma profissão, as mulheres encontraram o valor do trabalho que sempre exerceram na terra. "Em feiras livres os agricultores são escanteados ao lado dos seus produtos, os mesmos que são vendidos em supermercados a preços altos. Aqui, com a nossa produção, os nossos doces e salgados têm valor e são feitos com a nossa lavoura. Para nós isso é muito importante", relatou. 

mulheres do campo

Arriscar para crescer

Desde o início das atividades do grupo o sonho custa esforço de toda comunidade. Sem renda para impulsionar o negócio foi preciso que cada participante retirasse R$ 10 por mês do valor recebido no programa de assistência do governo federal para arrecadação de verba que possibilitasse a compra de utensílios da cozinha. "Nós saímos vendendo nossos produtos de porta em porta e também recolhendo doações, só depois de três meses conseguimos comprar nosso primeiro fogão que custou R$ 900", conta uma das líderes do grupo, Severina Rodrigues.

Outras conquistas foram alcançadas com a oportunidade de um empréstimo através de um programa de crédito para micro e pequenos empreendedores do Estado. O projeto foi aprovado e a liberação de R$ 24 mil proporcionou a construção do espaço e a compra dos equipamentos. "Para nós essa quantia é muito alta, mas estamos conseguindo pagar e falta muito pouco", revelou.

Atualmente, os alimentos são vendidos na feira livre da Praia de Jacumã, no município, além da produção para revenda e encomendas para eventos. O reconhecimento do trabalho proporciona também o convite para participação de grandes eventos, festivais gastronômicos, shoppings e faculdades.

O valor da terra que proporciona alimento, trabalho e gera renda é incomensurável para as quilombolas, quando possibilita oportunidade de sonhar e realizar o que parecia ser impossível. Um dos desejos de Claudineide, que não concluiu o Ensino Fundamental, é ver a filha de 19 anos no Ensino Superior. "Nós mudamos a história da nossa comunidade e queremos ajudar ainda mais. Creio que no próximo ano eu já possa ter condições de custear uma faculdade para minha filha, que eu não tive essa oportunidade", afirma. 

A força das raízes quilombolas herdadas pelas avós e mães dessas mulheres ajudam a driblar o preconceito motivado pela distinção social e racial presente na sociedade onde tentam ganhar espaço. 

Elas entendem que por serem mulheres e negras os obstáculos são ainda maiores: "As portas ficam fechadas, as pessoas não nos olham nos olhos, há uma rejeição, mas hoje está ficando diferente, estamos ganhando nome, nosso espaço. A rejeição existe e eu não sei se é pela cor ou pela pobreza", enfatizou a quilombola.