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Do Sertão à Europa: como paraibano nascido em Coremas virou doutor na Universidade de Cambridge

Hoje com 30 anos, Fernando estudou a maior parte da vida em escola pública, mas a dedicação aos estudos o permitiu realizar o sonho de cursar uma pós-graduação fora do país

Em sua obra “Pedagogia do Oprimido”, aclamada e utilizada como base em processos educacionais em dezenas de países, Paulo Freire, o Patrono da Educação, defendia que “Ninguém educa ninguém, e ninguém educa a si mesmo. Os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. Ou seja, para o brasileiro mais homenageado da história, é necessário que o aluno aprenda a “ler o mundo”, para assim conseguir transformá-lo. É também essa premissa que, segundo ele, permite pessoas menos favorecidas transformarem suas realidades e se tornarem “sujeitos da própria história”.

No caso de um paraibano natural do município de Coremas, no Sertão do estado, essa referência faz bastante sentido. Francisco Fernando Pereira nasceu e cresceu na zona rural da cidade, filho mais velho de um casal de agricultores que sequer chegou a completar o ensino fundamental. Mesmo estudando boa parte da infância no ensino público, com as deficiências estruturais já conhecidas, ele passou no vestibular de três universidades públicas, cursou uma delas, fez mestrado e recentemente concluiu o doutorado em engenharia na tradicional Universidade de Cambridge, na Inglaterra, considerada por diversas vezes a melhor instituição de ensino superior do mundo.

Além da sua força de vontade, que foi preponderante para Fernando enxergar a possibilidade de expandir suas próprias fronteiras, ele atribui parte de seu sucesso aos pais, sobretudo em razão do incentivo à educação desde cedo. “Apesar de não terem estudo, eles sempre se esforçaram muito para que tanto eu quanto minhas irmãs estudassem. Isso é uma das coisas que contribuíram muito para a minha formação”, diz.

Infância no Sertão

Coremas é um pequeno município no Sertão da Paraíba, com população estimada em apenas 15.423 habitantes, de acordo com o senso de 2018 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi lá que Fernando, hoje com 30 anos, nasceu e viveu até o final da adolescência. Como morava em um sítio na zona rural, distante do centro da cidade, a primeira base educacional que recebeu foi em um grupo escolar, modalidade de ensino comum na época, em que professoras locais davam aulas às crianças dentro do próprio sítio.

E foi assim até a antiga 4ª série do ensino fundamental, quando ele ingressou em uma escola estadual de Coremas. O problema é que a nova escola ficava a cerca de 10 quilômetros de sua casa, por isso, precisava utilizar um ônibus escolar nos trajetos de ida e volta. Por opção dos pais, a rotina de estudos substituía o trabalho na agricultura familiar, uma troca que outras famílias optavam por não fazer – algo que até hoje é habitual.

“Muita gente naquele tempo aproveitava os filhos para trabalhar no sítio, mas meu pai sempre evitou isso para que tivéssemos mais tempo para estudar, e assim nos dedicarmos ao que realmente precisávamos”, lembra o engenheiro.

Já no ensino médio, Fernando começou a estudar em um colégio particular da cidade, o que significou um salto expressivo quanto ao nível de qualidade da escola pública, mas que ainda assim, por ser no interior da Paraíba, passava por algumas dificuldades. Uma delas era a falta de um professor de Física. Por essa razão, era necessário que um amigo da diretora do colégio se deslocasse de Campina Grande para ensinar a disciplina em Coremas, sempre aos sábados. Claro que esse tipo de adversidade não seria suficiente para desanimar quem tinha um objetivo definido.

“No ensino médio eu pude amadurecer bastante, porque teria que fazer vestibular e mudar de cidade, então me preparei muito. Eu estudava muito, e sozinho. Na época, vestibular ainda era uma coisa muito distante, passar no vestibular era um acontecimento. No Sertão então era mais ainda, porque só alguns poucos conseguiam. A gente tinha que se apegar a um ou dois que passavam por ano e usar como exemplo”, explica Fernando.

A recompensa

Na cultura popular convencionou-se dizer que “todo esforço é recompensado”, mas, de fato, talvez não exista verdade maior que essa. O empenho de Fernando em busca de passar no vestibular rendeu a ele três aprovações em 2006, aos 17 anos: duas para o curso de Engenharia Mecânica, na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e uma em Estatística na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), sendo essa última em primeiro lugar.

O jeito foi fazer as malas e se mudar para Campina Grande, escolhida por ele por ser mais perto de sua cidade-natal, e onde tentaria conciliar os cursos de Engenharia, na UFCG, e Estatística, na UEPB. Porém, nada feito. Fernando desistiu da ideia logo após o primeiro semestre, para focar apenas na área de engenharia. Segundo o coremense, foi uma jornada de bastante renúncia.

“Continuei na mesma pegada de estudos, muito estudo e pouca diversão. Meus pais faziam o possível para pagar o aluguel e me manter em Campina, dividindo apartamento com outros estudantes"

Francisco Fernando, agora Ph.D em engenharia de materiais pela Universidade de Cambridge

Durante os primeiros anos de curso, Fernando intensificou a procura por projetos de pesquisa na academia, tanto para agregar ao seu conhecimento quanto para, quem sabe, receber uma bolsa que pudesse ajudar em seu sustento. Conseguiu entrar em alguns, e até mais do que isso: em 2009, atuando pelo Laboratório Multidisciplinar de Materiais e Estruturas Ativas do Centro de Ciências e Tecnologias da UFCG, ele desenvolveu, em parceria com seu amigo Jackson Simões, um trabalho que foi vencedor do 1º Prêmio Ciser de Inovação Tecnológica, uma premiação nacional que incentiva e reconhece talentos na área científica.

Já em 2011, perto de se formar, ele também se inscreveu em uma seleção de intercâmbio dentro da própria instituição, sendo escolhido para receber uma bolsa de estudos de seis meses na Universidade de Kentucky, nos Estados Unidos - aquela que seria sua primeira experiência internacional. Ao retornar, Fernando precisou apenas produzir o trabalho de conclusão de curso para, finalmente, graduar-se em Engenharia Mecânica.

Um tiro alto, mas certeiro

Ao conversar o mínimo que seja com Fernando, é possível perceber que ele é daqueles que não gosta de perder tempo e tem as metas bem traçadas. Muito por conta disso, ingressou no mestrado em Engenharia Mecânica assim que terminou o curso, também na UFCG. Dois anos depois, mais um desafio havia sido concluído, e o objetivo então seria o doutorado, porém com uma “pitada” maior de dificuldade: em uma universidade fora do país.

Foi então que o paraibano passou um longo tempo pesquisando uma instituição estrangeira em que talvez conseguisse desenvolver o projeto que tinha em mente, sempre na base da tentativa e erro. “Resolvi começar tudo do zero. Eu ia no site da instituição, pegava o nome do professor, anotava em uma lista e anotava o e-mail. Passei alguns meses fazendo isso para várias instituições na Inglaterra. Depois das listas passei a escrever e-mails. Acho que escrevi, na época, uns 200 e-mails para várias instituições”.

Até que resolveu arriscar, apostando suas fichas naquela instituição considerada um dos “templos máximos” da educação, que muitos veem como inatingível – a Universidade de Cambridge, na Inglaterra, era o alvo da vez.

Nas listas de avaliação de respeito e qualidade de instituições ao redor do mundo, Cambridge é equiparada a universidades como a de Oxford, também em terras inglesas, e às de Harvard e Stanford, no Estados Unidos. Por Cambridge, passaram gênios como Isaac Newton, Charles Darwin e Bertrand Russel.

“Eu vi que na Universidade de Cambridge tinha um professor que fazia o que eu queria fazer, mas pensei: ‘Nossa, Cambridge é um tiro muito alto. Mas estou buscando uma evolução profissional e pessoal e vale a pena tentar. No máximo, levo um ‘não’. Na época, até uns professores daqui pensaram que eu estava querendo demais e deveria ver outras instituições menos renomadas. Mas eu queria dar esse ‘tiro’ em Cambridge, e em Oxford também, que é vizinha lá e tão boa quanto”, destaca Fernando.

E o “tiro”, mencionado por ele, foi certeiro, muito pelo que já havia alcançado na carreira acadêmica. “Meu futuro orientador em Cambridge resolveu acolher essa minha causa. Ele me escreveu de volta dizendo que gostaria de ter um aluno do Brasil, que meu currículo se encaixava para o que ele pensava no projeto e que iria me ajudar durante a seleção em Cambridge”.

A partir disso, iniciou-se um demorado processo ao longo de 2014, em que ele precisou realizar uma espécie de dossiê online, que exigia a leitura de vários guias no site da universidade, para que pudesse ser aceito. O procedimento também compreendia uma avaliação completa da vida do aluno, analisando até mesmo o lado social.

“Depois de quase um ano arrastando esse processo, consegui a aceitação em Cambdrige. Quando recebi a carta foi uma coisa assim inacreditável”

A entrada em uma das melhores universidades do mundo para cursar doutorado, agora na área de engenharia de materiais, já estava garantida. Mas o custeio da da anuidade da instituição, bem como todos os gastos com viagem e manutenção na Inglaterra por quatros anos, ainda era um empecilho. Qual seria então a saída?   

A frase-chave “todo esforço é recompensado” realmente não é brincadeira. À época, o Governo Federal promovia o programa “Ciência sem Fronteira”, que incentivava a formação acadêmica no exterior com bolsas para quem havia conseguido a famosa carta de aceite. E essa era exatamente a situação de Fernando. Com um procedimento parecido com aquele que o possibilitou ser aceito em Cambridge, o então mestre em engenharia mecânica conseguiu também toda a documentação necessária para ser beneficiado pelo programa, que lhe deu todas as condições financeiras para estudar na Inglaterra.

“Comecei minha saga em Cambridge em fevereiro de 2015, cheguei no inverno. Passei por uma adaptação imensa de cultura, temperatura, adaptação acadêmica... até pegar o jeito de como as coisas funcionam levou um tempo. Aprendi muito nessa época, com várias experiências e várias pessoas. Tive a honra de conhecer pessoas muito humildes querendo ajudar. Foi um período de muito crescimento acadêmico e pessoal também”, lembra.

O engenheiro ressalta ainda que nas duas oportunidades que surgiram de estudar no exterior, tanto nos Estados Unidos, ainda durante o curso, quanto na Europa, ele só conseguiu aproveitar por estar devidamente preparado. Ao mesmo tempo em que realizava a graduação, Fernando fez cursinho de inglês, o que lhe possibilitou ter o nível do idioma exigido em ambas experiências.

Já na Inglaterra, ele ainda estudou espanhol e italiano. Também viajou para congressos dentro do próprio território britânico e em países como Bélgica e, novamente, Estados Unidos, além de participar de outros inúmeros eventos em seu campo de estudo.

“No final de 2018 submeti minha tese, depois fiz minha defesa em outubro de 2018. Passei, fui aprovado, depois entreguei minha tese corrigida. Demorou um tempinho porque existe um processo burocrático. Tudo isso me levou à colação de grau no dia 27 de abril desse ano. Acho que essa experiência foi enriquecedora em todas as áreas. Eu vim do Sertão da Paraíba, então cresci com oportunidades escassas, e nas poucas que tive eu investi muito para tentar conseguir os objetivos”.

Próximos passos

Recém-chegado ao Brasil depois de se tornar Ph.D em engenharia de materiais (nomenclatura que, em inglês, significa “Doctor of Philosophy”, ou Doutor em Filosofia, equivalente ao doutorado brasileiro), Fernando atualmente mora em João Pessoa, onde está trabalhando em projetos pessoais. Um deles, inclusive, é um curso online, já lançado, de como conseguir estudar em instituições estrangeiras.

Ele diz que por sua maior conquista profissional ter sido financiada por um programa do Governo, pretende agora dar uma retribuição ao país com aquilo que aprendeu estudando fora. Assim, não tem ainda uma meta concreta de vida, mas afirma que está aberto a novas possibilidades, como tornar-se professor ou trabalhar em empresas, por exemplo, sendo, de preferência, algo em que consiga repassar boa parte do vasto conhecimento adquirido.

“Agora eu estou a serviço do país, sei que está difícil a situação aqui. O fato é que eu também tenho essa vontade de compartilhar os conhecimentos, o que aprendi dentro e fora da instituição. E também passar para as pessoas que é possível buscar os sonhos, não necessariamente os acadêmicos, mas de alcançar algo maior nas carreiras. Sinto que é o momento de fazer isso”, conclui, o agora doutor, Francisco Fernando.

Hoje, Fernando também possui um perfil profissional no Instagram que já conta com quase 40 mil seguidores. Segundo ele próprio, a ideia é utilizar a rede social para fazer o que mais gosta: dividir com o maior número de pessoas possível tudo aquilo que tem a oportunidade de aprender, dia após dia.