em sala de aula

Estudantes denunciam assédio sexual em escola técnica de João Pessoa

O Portal T5 teve acesso a depoimentos de alunas que acusam o professor e dono de uma instituição da capital paraibana.

Com um desabafo nas redes sociais, uma estudante de uma escola de Ensino Técnico denunciou o caso de assédio sexual sofrido por ela, em fevereiro deste ano, nas dependências da instituição do bairro de Tambiá, em João Pessoa. Devido a repercussão da publicação, outras jovens reconheceram o mesmo suspeito e dividiram as semelhanças das violências sofridas.

Portal T5 teve acesso a três depoimentos de denúncias realizadas na Central de Flagrantes, Delegacia de Atendimento à Mulher e Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Infância e a Juventude. A reportagem ouviu o relato de duas jovens, que contaram como ocorreram as agressões no ambiente escolar. 

Com 18 anos e a vontade de cuidar de animais, Cecília* ingressou no curso técnico de Enfermagem Veterinária. De acordo com a jovem, o início do sonho da profissão foi encerrado em menos de dois meses e virou pesadelo. Hoje, a estudante denuncia o dono da instituição de assédio sexual no intervalo de uma das aulas.

"No dia do ocorrido ele me chamou para ajudar com uma reforma no andar de cima, para levar o material, esse tipo de coisa. Aí eu fui, na inocência. Como ele tem a mania de falar abraçando e tudo, quando ele me abraçou eu achei que fosse normal, só que depois, durante o abraço, ele quis encostar os lábios nos meus, mesmo assim pensei: 'é isso mesmo que está acontecendo ou eu estou imaginando coisa?' Então aconteceu de novo, tentou me beijar mais uma vez. Eu virei o rosto e ele disse ‘é difícil resistir essa boca gostosa’. Eu desci, assisti a aula e esperei terminar, até todo mundo sair da sala, então comecei a chorar e liguei para minha mãe". 

Depois de contar o caso para o companheiro, a estudante decidiu denunciar e divulgar o acontecido na internet. Em postagens no Facebook, a jovem pede justiça e o descreve medo e angustia após a agressão sexual. 

"A princípio eu não queria porque estava com medo e ele é dono de uma escola, tem influências e sempre dizia que tinha amigos delegados, promotores...sempre falava de pessoas importantes. Então fiquei com medo, mas tive apoio da minha colega e do meu namorado. Comigo aconteceu uma vez e eu fui logo denunciar para as outras meninas saberem que não estão sozinhas, que outras pessoas estão passando por isso também", contou à reportagem.

Depois do episódio, a jovem não retornou às aulas e decidiu adiar o sonho profissional. 

"A gente tinha um sonho para realizar, estávamos em busca disso e perdemos tudo. Ele está destruindo sonhos e criando traumas".

Cecília - Estudante de Enfermagem Veterinária

SEGUNDA DENÚNCIA 

Na mesma delegacia, o depoimento de Cecília ganhou força com o relato de outra vítima. Fernanda*, de 19 anos, é aluna de outro curso da instituição, e afirma ter passado pelo mesma importunação três vezes.

"Um dia fui chamada à sala da diretoria da escola. Ele falou que havia arrumado um trabalho para mim. Me chamou no primeiro andar, veio me abraçar e me beijar à força. Tentei correr, mas ele me segurou pelos braços e tentou alisar a minha parte íntima. Tentei gritar, mas ninguém escuta, no setor de cima é muito abafado e não tem câmera de segurança. Todos os atos que ele fazia eram fora da câmera. Fiquei com medo e falei que iria denunciar sendo que fui aconselhada a não denunciar por conta de ameaças que ele fazia, que eu não iria medir forças com ele, que ele poderia tirar minha vida e isso não iria demorarQuando vi a postagem entrei em contato e disse que também havia acontecido comigo. Mas precisava falar com meus pais. Até então eles não sabiam o que estava acontecendo. Cheguei em casa e disse que precisava denunciar. Fui à delegacia e contei tudo".

Durante a entrevista, Fernanda mencionou ter recebido mensagens de celular do suposto agressor. 

"Acredito que ele foi nos meus dados de matrícula e começou a me mandar mensagens no WhatsApp, eu não respondia, só fazia visualizar. Quando chegava na escola ele questionava, sempre dava uma desculpa para não responder. Ele sempre dizia a mesma coisa, que eu era muito bonita, muito jovem e dizia que tava entrando em divórcio e estava passando por um momento difícil"

Em uma das agressões denunciadas, a vítima disse que foi abordada pelo diretor da instituição com um convite de carona até o ponto de ônibus. "Ele estava parado com o carro na frente da escola dizendo que queria sair comigo, eu disse que não queria e saí andando. Quando fui esperar o ônibus..." Neste momento da entrevista, Fernanda interrompeu o depoimento e disse que não iria continuar a falar, por vergonha do que aconteceu com o suspeito. 

Com a matrícula trancada, assim como Cecília, Fernanda também deixou as aulas e não pretende mais voltar a estudar. Em meio às lágrimas, a estudante confessou que tem medo que o mesmo caso aconteça novamente. 

"Eu não pretendo mais voltar à instituição e meus sonhos foram por água a baixo. Agora eu não tenho mais força de vontade de ir para o curso, para curso nenhum, que eu penso que toda vez que eu for estudar vai acontecer sempre a mesma coisa. Não tenho mais confiança para ir a uma sala de aula estudar. Saindo de casa às 6h e voltando às 15h, para isso acontecer de novo? Eu não pretendo mais estudar"

INQUÉRITO POLICIAL

O depoimento das vítimas ouvido pela responsável pela Delegacia de Atendimento à Mulher virou inquérito e será encaminhado nesta semana para a Justiça. Segundo a delegada Josenise Andrade, as denúncias foram investigadas e tratadas como assédio sexual. Josenise reforçou o poder da denúncia das vítimas: "Se tiverem outras vítimas que ainda não procuraram, que nos procurem para que possamos dar andamento e que tenham mais provas". 

No mesmo período que os crimes foram denunciados pelas estudantes citadas na matéria, uma adolescente, de 16 anos, procurou a polícia ao lado da mãe e também acusou o proprietário da escola por assédio sexual. Na Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Infância e a Juventude, a delegada Joana D'arc confirmou à reportagem que um inquérito foi instaurado e enviado à Justiça. As denunciantes da Delegacia da Mulher foram ouvidas como testemunhas para reforço da denúncia. 

Conforme a lei brasileira, há diferença entre crimes envolvendo violência sexual. De acordo com o advogado Henrique Toscano, o assédio está contemplado no art. 216-A do Código Penal e envolve relações de grau hierárquico. "Tem relação ao exercício de emprego , cargo ou função. O assédio pode partir em relação a um professor e seu aluno(a) , em razão disto . A pena é aumentada em 1/3 se a vitima é menor de 18 anos", afirmou.

Sobre o crime praticado dentro de escolas, principalmente na relação professor/aluno, não há na lei hipótese específica que aumente a pena em razão do local do cometimento do crime. Mesmo assim, Toscano evidencia que há sim discussão sobre o caso.  

O consultor Jurídico ainda explicou que o crime estupro se define como categoria mais grave. "A diferença é o ato deliberado do agente em querer praticar conjunção carnal ou ter com ele a prática de outro ato libidinoso" explicou.

Portal T5 procurou o dono da escola apontado pelas estudantes como suspeito da agressão. Ele afirmou que existe uma 'campanha difamatória'. "Estou muito triste com essa situação e quero esclarecer que eu não sou nenhum tarado, nenhum pedófilo. Sou pai de família, sou avô, sou um ótimo diretor escolar e nunca assediei nenhuma aluna minha"

De acordo com suspeito, o namorado de Cecília - a primeira denunciante - está sendo processado por difamação. "Ele expôs minha foto nas redes sociais e está aliciando pessoas para me incriminar. Eu sou um profissional de respeito, premiado internacionalmente, tem muita gente com inveja de mim. Creio que ela quis fazer um charminho, dizendo que eu tinha dado em cima dela e gerou tudo isso", contou.

O suspeito disse estar disposto a colaborar com as investigações e provar sua inocência. À reportagem ele apresentou capturas de conversas em aplicativos de celulares, imagens de câmeras de segurança e a estrutura do prédio.

Atualmente o acusado dos assédios assumiu um relacionamento com ex-aluna da instituição, que está grávida. Ele também cumpre medida protetiva a favor da ex-esposa, por agressão doméstica. 

APOIO ÀS VÍTIMAS

Em João Pessoa, o Centro de Referência da Mulher acolhe mulheres em situação de violência doméstica, familiar e sexual. Segundo a coordenação do Centro, o espaço conta com psicólogas, advogados e assistente social de forma gratuita. As vítimas podem procurar o ambiente de apoio localizando na Rua Afonso Campos, nº 111, no Centro da capital ou ligar para o número:  0800 283 3883.

Portal T5 conversou com uma das profissionais responsáveis pelo apoio psicológico às vítimas que procuram o Centro de Referência da Mulher. Segundo Vanini Cavalcante, este tipo de assédio é comum quando o agressor sabe da relação de poder que existe sobre os alunos e se aproveita disso. "É clássico o modelo de abordagem deste tipo de agressor e ele não vai ser agressivo no primeiro contato. Ele vai fazer o jogo de sedução para as vítimas se sentirem atraídas, muitas vezes não é por interesse, mas elas ficam encantadas mesmo, por parecer uma pessoa muito inteligente, que demonstra domínio total de um assunto ou pode ajudar em muita coisa. Ele quer encantar as vítimas com benefícios, emprego e até caronas". 

Para a psicóloga, quando o agressor percebe que conseguiu conquistar a vítima, ele demonstra o objetivo real da relação. Após os assédios algumas vítimas se sentem culpadas e nem denunciam o crime por questões familiares, religiosas ou financeiras. "Isso acontece porque a sociedade as culpabiliza. Essas vítimas precisam de um apoio profissional para deixar claro que elas não têm culpa. O erro é do agressor. Ele que não poderia ter feito esse papel. Elas podem passar o resto da vida se culpando." completou. 

* Os nomes das estudantes citadas na reportagem são fictícios com objetivo de preservar as vítimas.

A denúncia também foi repercutida no programa Tambaú da Gente, exibido na TV Tambaú. Confira: