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Espírito de criança: Como vivem os idosos abrigados na Vila Vicentina

A Vila Vicentina Júlia Freire é uma instituição de longa permanência para idosos sem fins lucrativos e que funciona no bairro da Torre, em João Pessoa-PB

Por Mateus Silomar

08h00 - Atualizado 12/10/2017 às 08h21

O tempo é o senhor da razão. Muito se fala que com o passar dos anos o ser humano vai envelhecendo e morrendo aos poucos. Mas, será que isso é um fim ou recomeço? Os ponteiros do relógio vão se estendendo como um oceano cheio de histórias e feições. A velhice é um marco e ao mesmo tempo é a soma de uma longa caminhada. Iremos adentrar a contos reais e, além de tudo, vamos falar de histórias humanas, de gente como a gente. Vidas que, de alguma maneira, foram esquecidas ao longo dos anos.

Um desses lugares é a Vila Vicentina Júlia Freire, uma instituição de longa permanência para idosos sem fins lucrativos e que funciona no bairro da Torre, em João Pessoa-PB. Surgiu em 1944, pela vontade de uma fazendeira chamada Júlia Freire, que doou dois mil e duzentos metros quadrados de sua propriedade, em regime de comodato, para os pobres de São Vicente. Foi fundada pela Sociedade de São Vicente de Paulo, junto com a doação do terreno de Júlia Freire. Atualmente, a Vila abriga mais de 61 idosos, com mais de 50 voluntários, sendo 15 fixos.



Família de voluntários

Nos corredores e nas caminhadas pela instituição se encontram muitas histórias e muitos ensinamentos de vida. Entre elas, está Josilene Targino, 43 anos, que foi voluntária desde os 13. Atualmente, ela é contratada e fica na parte da supervisão da limpeza, cozinha e lavanderia. O pai de Josilene, João Neves e a mãe, Maria do Carmo Targino, trabalharam na casa na década de 1980. Maria do Carmo ficou na instituição há 20 anos. E hoje, Marione Targino, a irmã dela, também está na Vila Vicentina. “Minha vida foi toda voltada para o voluntariado. Sou muito feliz aqui. Acordo bem cedo, mas com um sorriso estampado no rosto. É um aprendizado diário. Eu fico muito emocionada com as histórias. O amor e carinho recebidos pelos idosos não tem preço. Sou grata a Deus por todo esse tempo vivido nesse lugar”, destacou Josilene.

“Somos crianças mais crescidas"

Maria Dulce, 99 anos.
Maria Dulce, 99 anos
Maria Dulce, 99 anos

Entre idas e vindas, a vida nos traz ao longo do tempo novas experiências e ensinamentos. Dona Maria Dulce, de 99 anos, é a prova de como a vida trouxe coisas boas. O sorriso estampado em seu rosto e uma alegria singular são as marcas dessa jovem senhora. Maria Dulce, em 2018, completará 100 anos de idade. Anos esses bem vividos com intensidade e um coração cheio de saudade.

Dona Dulce, como é conhecida no Vila Vicentina, é a idosa com mais idade. “Eu sou muito feliz. Aqui é um paraíso. Prefiro estar aqui, pois vejo pessoas, converso, dou risadas. Se eu estivesse em casa, estaria em frente a televisão sem fazer nada”, ressaltou.

Maria Dulce nasceu no município de Alagoa Grande, em João Pessoa, no dia 14 de maio de 1918. Os pais dela eram agricultores. Filha caçula de 20 filhos. A idosa tem um filho que mora em João Pessoa, mas ela preferiu em 2015 ir morar no Vila Vicentina Júlia Freire por conta própria. A criança mais crescida - como ela gosta de ser chamada - não conheceu o pai. Ela conta que ele faleceu quando tinha três meses de idade. A mãe dela cuidou sozinha de todos os filhos.

Andando mais nos corredores da instituição, se percebe um ambiente alegre e com uma energia diferente. O vento da saudade e das boas lembranças são fatores que envolvem aquele lugar. Memórias estas que Maria Alice Celani, de 87 anos, traz em seu semblante. Ela é neta de italianos. Nasceu na cidade de Santa Rita, em João Pessoa.

Maria Alice é vice-presidente da Vila Vicentina Júlia Freire e é considerada a única idosa a ter um cargo em um asilo. “O que eu faço é uma missão de vida, ajudar o próximo é um dever de todos nós. Meu coração enche de alegria em ver todos os idosos aqui bem cuidados e com dignidade”, comentou. Costureira de mão cheia e com habilidades em comandar, Dulce é a prova que idade não quer dizer invalidez. Em 2017, ela faz 10 anos morando na instituição. “Não gosto de ficar parada, sou bem agitada, ficar dentro de um quarto não é meu forte”, destacou.

Professora e enfermeira Lenilde Ramalho e Vice-Presidente da Vila Vicentina Júlia Freire Maria Alice
Professora e enfermeira Lenilde Ramalho e Vice-Presidente da Vila Vicentina Júlia Freire Maria Alice

O trabalho voluntário é uma das forças desse lugar. A professora e enfermeira Lenile Ramalho doa o seu tempo e seus conhecimentos desde 2005. Ela programa passeios e garante a diversão dos idosos. “Tenho muito orgulho em trabalhar aqui, eu era contadora, mas me apaixonei pela área da saúde. Eu gosto de gente e, principalmente, dos idosos”, disse.

Amor e dedicação são palavras que a fisioterapeuta Maeve Braga, de 38 anos, expressa com muito orgulho em trabalhar em uma instituição de idosos. “Eu pensava em desistir da minha profissão, estava tão desacreditada de tudo, mas quando conheci a história da Vila Vicentina me encantei. Hoje faz nove anos que trabalho. E cada dia é um aprendizado. Eu ganho muito carinho e muito afeto. E isso não há dinheiro que pague.”, falou.

Fisioterapeuta Maeve Braga e moradora da Vila Vicentina Alcinda de Lucena, 82 anos
Fisioterapeuta Maeve Braga e moradora da Vila Vicentina Alcinda de Lucena, 82 anos

Estilo e alegria

 Unhas pitadas, cabelo escovado e um óculos de sol bem estiloso são a marca de Dona Alcinda de Lucena, de 82 anos. Nasceu em Recife, capital de Pernambuco, tem quatro filhos, seis netos e três bisnetos. “Eu adoro ler. Sugeri este ano para os administradores da casa de ter uma biblioteca. Gosto muito de palavras-cruzadas. Eu viajo nas leituras. Temos que exercitar a mente. Toda tarde eu leio”, disse.

Idoso mais velho da instituição, Antônio Pereira, 109 anos
Idoso mais velho da instituição, Antônio Pereira, 109 anos

Idoso mais velho

Você sabe o que é ter 109 anos de idade? É isso mesmo, Antônio Pereira tem 109 e é o morador mais velho do Vila Vicentina. Seu Lourinho, como é conhecido, nasceu em Rio Tinto. Mora no asilo há 10 anos. Ele foi encaminhado pela Promotoria do Idoso por vulnerabilidade e maus tratos. Antônio Pereira é lucido e ainda gosta bastante de futebol e comer um bom feijão com arroz.

“O milagre acontece a cada dia”

Washington Cardoso, presidente da Casa Vicentina Júlia Freire
Presidente do Vila Vicentina, Washington Cardoso e vice-presidente da Vila Vicentina, Maria Aline, 87 anos
Presidente do Vila Vicentina, Washington Cardoso e vice-presidente da Vila Vicentina, Maria Aline, 87 anos

“É com muito prazer que trabalho como voluntário aqui nessa casa, apesar das dificuldades por sermos uma instituição filantrópica. Eu vejo o milagre acontecer a cada dia”, disse Cardoso. Washington Cardoso é o presidente do abrigo há 10 meses e fala que o local sobrevive com doações. Segundo o presidente, eles realizam captações de donativos, e ressalta que a instituição precisa muito da ajuda da sociedade. No ano passado recebeu o prêmio da Organização das Nações Unidas (ONU) por ser a melhor instituição de longa permanência da Paraíba. A esposa de Washington, Conceição Cardoso, é voluntária há 20 anos no asilo. “Os idosos são como uma família para mim, meu sentimento é de alegria e gratidão”, relatou Conceição.

População Idosa - De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população de idosos representa um contingente de quase 15 milhões de pessoas (8,6% da população brasileira). As mulheres são maioria: 8,9 milhões (62,4%) dos idosos são responsáveis pelos domicílios e têm, em média, 69 anos de idade e 3,4 anos de estudo. Com um rendimento médio de R$ 657,00, o idoso ocupa, cada vez mais, um papel de destaque na sociedade brasileira.

 Nos próximos 20 anos, a população idosa do Brasil poderá ultrapassar os 30 milhões de pessoas e deverá representar quase 13% da população ao final deste período. Em 2000, segundo o Censo, a população de 60 anos ou mais de idade era de 14.536.029 de pessoas, contra 10.722.705 em 1991. O peso relativo da população idosa no início da década representava 7,3%, enquanto, em 2000, essa proporção atingia 8,6%.

 A proporção de idosos vem crescendo mais rapidamente que a proporção de crianças. Em 1980, existiam cerca de 16 idosos para cada 100 crianças; em 2000, essa relação praticamente dobrou, passando para quase 30 idosos por 100 crianças. A queda da taxa de fecundidade ainda é a principal responsável pela redução do número de crianças, mas a longevidade vem contribuindo progressivamente para o aumento de idosos na população. Um exemplo é o grupo das pessoas de 75 anos ou mais de idade que teve o maior crescimento relativo (49,3%) nos últimos dez anos, em relação ao total da população idosa.